Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Trovador com Nobel

Divulgação/Disney+

Trovador com Nobel

  • Heraldo Palmeira

GIRAMUNDO VIU Um Completo Desconhecido (2024) é uma cinebiografia sobre Bob Dylan baseada no livro Dylan Goes Electric, (“Dylan fica eletrificado”, em tradução livre para o português) de Elijah Wald. Com direção de James Mangold, que também assina o roteiro com Jay Cocks, está disponível no Disney+..

O filme aborda o início da carreira de Bob Dylan (de 1961 a 1965), com as primeiras apresentações em cafés, bares e clubes que abriram caminho para sua consagração em discos memoráveis e grandes espetáculos. O eixo da narrativa passa pelos atores Timothée Chalemet (Bob Dylan), Edward Norton (Pete Seeger), Monica Barbaro (Joan Baez) e Elle Fanning (Sylvie Russo).

Dylan leu o roteiro com o diretor James Mangold – numa das leituras até interpretou a si mesmo –, aprovou completamente o projeto, considerou Chalamet um ator “brilhante” e afirmou que a cinebiografia é “uma releitura fantástica dos eventos do início dos anos 1960”.

O cantor fez uma única exigência à equipe de produção do filme: que fosse adotado um nome fictício para Suze Rotolo – artista de vários talentos (pintora, designer de joias, ilustradora) –, sua primeira namorada em Nova York. “Ela não era uma pessoa pública, e acho que ele fez esse pedido para protegê-la. E a Suze já morreu, então esse relacionamento continua sendo muito precioso para ele”, revela a atriz Elle Fanning, responsável por representá-la na personagem fictícia Sylvie Russo. Os produtores responderam com uma delicada licença poética criando para a personagem um nome que manteve as iniciais “SR”. Suze Rotolo é a moça abraçada a Dylan na capa do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963), retrato eternizado da importância dela na vida do artista. Basta lembrar que esse disco apresentou ao mundo nada menos que a canção Blowin’ in the Wind.

O ator nova-iorquino Timothée Chalemet encarna o jovem e desconhecido Robert Zimermann descendo de um Ford Country Sedan Station Wagon, em que viajou de carona com uma família deitado no enorme porta-malas. Foi assim que ele chegou à Nova York – que adotaria como pátria – em 24 de janeiro de 1961, carregando uma mochila, um violão e algumas músicas que se tornariam verdadeiros hinos pop mundiais. Naquele dia gelado de inverno, um desconhecido nativo de Minnesota desembarcou na “capital do mundo” para construir sua sólida carreira de fama estelar rebatizado como Bob Dylan.

Assim que pisou no chão da Big Apple rumou para o Village, onde iniciaria sua metamorfose artística nos clubes, bares e cafés animados pela energia criativa do movimento cultural nova-iorquino como Cafe Wha?, Gaslight Cafe, Gerde’s Folk City e Village Vanguard. Era nesses locais onde estava acontecendo o renascimento da música folk.

Há quem afirme que já naquela primeira noite o forasteiro se apresentou para uma plateia impressionada do lotado Cafe Wha?, durante uma sessão de microfone aberto para quem quisesse subir ao palco. Durante a apresentação, o fundador da casa Manny Roth pegou o microfone e perguntou ao público presente se alguém ofereceria um sofá em casa para o novato dormir.

A lenda começou a ganhar forma na imagem de um contorno humano carregando seu violão, iluminado pela luz dos postes das ruas do Village, entrando e saindo dos clubes envoltos pela névoa da fumaça dos cigarros. Por mais forte que fosse o próprio sonho, nem mesmo ele poderia prever o que viria depois. Ao perambular de um palco para outro, estava começando a moldar definitivamente o panorama cultural americano. Não era pouca coisa, estava numa cidade conhecida pela crítica cultural implacável. Mesmo assim, se firmou como compositor, cantor, pintor, ator, escritor, e se transformou numa personagem icônica de Nova York.

O próprio Manny Roth, reconhecido como descobridor de talentos, não “farejou” o que tinha diante de si e reconheceu anos depois: “A primeira vez que ouvi Dylan em um microfone aberto, pensei: ‘Esse garoto não tem a mínima chance’. Ele não sabe cantar, não sabe tocar e certamente não tem presença de palco”.

Mal havia completado dez meses em Nova York e, em 26 de outubro, com apenas 20 anos, estava sentado diante de John Hammond, o lendário produtor responsável por revelar Aretha Franklin, Benny Goodman, Bruce Springsteen, Count Basie e Leonard Cohen. E saiu da sala de contrato assinado com a gigante Columbia Records.

Um Completo Desconhecido começa com um pequeno deslize: enquanto a legenda informa que “estamos” em 1961, aquela versão (bem surrada) do carro do qual o ainda Bobby desembarcou em NYC só chegaria ao mercado (novinho em folha) em 1962. Nem mesmo com extrema benevolência é possível compreender como licença poética ou mensagem subliminar para juntar o nome do carro e um dos ritmos que Dylan namorou, o country, pois o Ford Country estava no mercado desde 1952. Bastava a produção ter utilizado um modelo mais antigo do mesmo carro – cairia muito bem um modelo 1959 como alusão à fundação do Café Wha?. Além disso, o caroneiro terminou construindo uma obra bem mais relacionada com o folk e o rock.

Depois que o rapaz desceu da enorme station wagon, a visão daquela Nova York é deslumbrante e íntima em razão da qualidade da reconstituição de época e fotografia do filme. Os primeiros movimentos de Bobby pela cidade o levaram a cumprir o objetivo declarado da viagem: conhecer seu grande ídolo Woody Guthrie, que estava internado em um hospital em Nova Jersey em razão da doença de Huntington, conforme lhe havia informado um amigo músico de Minneapolis.

Morto em 1967, Guthrie passou à história da cultura americana como um dos grandes ícones do folk, apesar da perseguição que sofreu em razão da sua militância política. Tanto que sua canção This Land Is Your Land é uma das mais populares canções americanas e uma das 50 gravações eternizadas no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso americano.

O filme revela as figuras decisivas para a vida e carreira que Dylan encontrou desde os primeiros tempos na metrópole, embora o roteiro pudesse ter ido mais fundo na complexidade da relação pessoal, artística e da influência mútua que ficou construída entre tantas personagens riquíssimas. Pete Seeger, que conheceu cantando ao lado do leito hospitalar de Guthrie em sua primeira visita ao ídolo, virou uma espécie de mentor que também abriu muitas portas. Joan Baez, já bem estabelecida na cena musical, foi parceira sentimental e dos palcos numa convivência que inspirou canções definitivas, sem contar que o prestígio dela deu grande impulso à ascensão dele.

Também vão surgindo outros nomes fundamentais para carreira de Dylan. O lendário Johnny Cash, um dos maiores apoiadores. O músico Dave Van Ronk, essencial para o desenvolvimento artístico. O músico e produtor Al Kooper, fundamental para a criação de Like a Rolling Stone ao transformar sua performance no teclado durante a gravação numa marca sonora definitiva. O empresário Albert Grossman, incansável para impulsionar e dar visibilidade no cenário musical. O guitarrista Mike Bloomfield, um dos maiores parceiros musicais e decisivo na criação do álbum Highway 61 Revisited (1965).

Vemos Dylan fazendo questão de passar ao largo das disputas dogmáticas entre os estilos musicais, que colocava em ferrenha oposição sonoridades acústicas e eletrificadas. Desde os primeiros momentos ele sempre deixou claro que gostava de tudo, que cantava várias coisas e também valorizava instrumentos eletrificados – uma espécie de tabu para os mais conservadores e que terminou gerando um ponto de tensão com Seeger.

Lá está também o registro do Newport Folk Festival de 1965, um dos momentos mais agudos dessa divergência, a ponto de o diretor do festival Alan Lomax partir para a briga com Albert Grossman, empresário de Dylan. O cantor, adorado por aquela plateia, cometeu a “heresia” de subir ao palco portando uma guitarra elétrica no lugar do violão, acompanhado por uma banda eletrificada. Terminou obrigado a interromper sua apresentação soterrado pelas vaias. Com lágrimas nos olhos, retornou ao palco sem a banda e “armado” com um providencial violão emprestado por Johnny Cash.

Na verdade, de pouco adiantou a reação negativa. Aquele Dylan eletrificado da histórica apresentação de 25 de julho de 1965 em Newport era irreversível. Aquele público chocado e disposto a vaiar seu artista só compreenderia depois que estava testemunhando a virada do folk para o folk-rock, algo que mudaria a história da música pop. Apesar da enorme controvérsia que dividiu críticos e fãs, no mês seguinte ele lançou Highway 61 Revisited. Eletrificado, sim, e considerado um dos álbuns mais influentes de todos os tempos.

Um Completo Desconhecido foi indicado em oito categorias do Oscar 2025, mas não ganhou nenhuma delas. Segundo a revista The Hollywood Reporter, Dylan foi convidado para ser apresentador da cerimônia e também tocar nela, mas recusou tudo no seu melhor estilo recluso. A tarefa foi então confiada a Mick Jagger.

O filme revela como tudo começou para um artista que jamais abandonou suas convicções pessoais e criativas, e que, ao longo do tempo, criou uma obra personalíssima e atemporal. Dylan é sem dúvida um raríssimo sujeito que controla inteiramente a própria produção, sem se submeter a desígnios de gravadoras e do mercado. Talvez ele mesmo esteja apenas respondendo à sua própria pergunta (trecho da icônica Blowin’ in the Wind) “Quantos anos uma montanha precisa existir até que seja levada pelo mar?” ao viver sua admirável longevidade pessoal e profissional.

Nessa rara trajetória, Dylan sempre encontrou inspiração e meios para se reinventar. “Cada coisa que ele faz representa algo que o caracteriza. Ele pode compor músicas melhores amanhã, cantar alto neste álbum e baixo em outro, usar guitarra elétrica ou acústica, fazer algo estranho ou o que for, mas o que causa toda essa mudança é um personagem incrível chamado Bob Dylan”, derreteu-se o beatle George Harrison numa entrevista.

O filme apenas abre as cortinas do espetáculo vivido por um outsider que virou um trovador com alma mutante, tão imprevisível que terminou sendo, até aqui, o único cantor/compositor a receber o Prêmio Nobel de Literatura “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”, segundo a Academia.

Nobel Para não variar, Dylan não apareceu na solenidade oficial de entrega do Prêmio Nobel 2016, realizada em dezembro daquele ano. Alegou “outros compromissos” e enviou carta de agradecimento onde informava estar “honrado por receber um prêmio tão prestigioso”.

Mesmo conhecido por sua aversão a grandes cerimônias, Dylan não foi poupado pela atitude. O acadêmico Per Wastberg chamou-o de “mal-educado e arrogante”. A crítica literária Maria Schottenius escreveu no influente jornal local Dagens Nyheter que foi um “erro de cálculo” da Academia escolher um cantor em detrimento de grandes escritores e poetas.

Como os agraciados são obrigados a proferir uma palestra até seis meses após o anúncio oficial dos nomes, ele desembarcou em Estocolmo em abril de 2017, faltando poucos dias para o fim do prazo. Aproveitando uma mini turnê no país, cumpriu a exigência e recebeu sua láurea em cerimônia particular na Academia Sueca – os premiados com o Nobel recebem diploma, medalha de ouro e uma quantia em dinheiro (na ocasião foram 8 milhões de coroas suecas, que equivaliam a US$ 900 mil na ocasião).

O artista afirmou que o prêmio o fez refletir sobre a relação entre a literatura e sua música, destacando Dom Quixote (Miguel de Cervantes), Moby Dick (Herman Melville), Odisseia (atribuído a Homero) e Robinson Crusoé (Daniel Defoe) como obras que influenciaram seu trabalho de composição. Suas produções escritas também sofreram influência do modernismo e do movimento beatnik que sacudiu os EUA nos anos 1950.

Cafe Wha? Fundado em 1959, o lugar abriu as portas na 115 MacDougal Street, Greenwich Village, no que havia sido uma antiga estrebaria subterrânea transformada em garagem. Foi criado por Manny Roth, um homem de personalidade turbulenta conhecido como “Duque da Rua MacDougal” e tio do vocalista David Lee Roth (que ganhou notoriedade no grupo Van Halen).

Em pouco tempo, a casa, que funciona até hoje no mesmo endereço, ganhou fama como “A cafeteria mais animada de Greenwich Village”, um caldeirão que misturava cantores, poetas, comediantes, roqueiros, artistas em geral e manifestantes políticos. Era uma porta para iniciantes, pagava baixos salários, sem bebidas alcoólicas e, não raro, servia de hospedagem temporária para eles.

No decorrer dos anos 1960, seu palco subterrâneo recebeu talentos ainda desconhecidos da música e da comédia. Uma lista poderosa composta por Bill Cosby, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Cat Mother & the All Night Newboys, Jimi Hendrix, Joan Rivers, Kool & the Gang, Lenny Bruce, Peter, Paul and Mary, Richard Pryor, The Velvet Underground e Woody Allen.

Enfrentando dificuldades financeiras, Manny Roth vendeu o clube na década de 1970 e encarou outras atividades como corretagem de imóveis, bar nas cercanias da Universidade de Columbia e restaurante em Woodstock. Morreu de causas naturais em 2014, aos 94 anos. Vivia em Ojai, pequena cidade da Califórnia.

Veja o trailer neste link   https://www.youtube.com/watch?v=uWWFUprlQto

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