Divulgação/Nike
Brasil em campo 3
- Heraldo Palmeira
Brasil 3×0 Escócia encerrou a participação da Canarinho na fase de grupos, que agora se prepara para o jogo dos dezesseis avos de final onde cada partida é decisiva e quem perde volta para casa. Nosso desempenho na 1ª fase da Copa causou impressões diversas nos três jogos: péssima contra o Marrocos, protocolar contra o Haiti e boa contra a Escócia. Apesar da falta de brilho e de grandes exibições, terminarmos em 1º lugar, comprovando a fragilidade dos nossos primeiros adversários.
Embora suma do jogo de vez em quando, Vinícius Jr. finalmente ocupou o lugar que todos esperavam dele com a Amarelinha. Marcou gol em todos os jogos, foi o grande nome em campo contra a Escócia e seu gol anulado algo tão absurdo que, num lance perfeito de marketing de oportunidade, a fabricante chinesa da tecnologia do VAR utilizada no Mundial foi taxativa: “Nota Oficial – A Hisense, fornecedora da tecnologia para as revisões do VAR na Copa do Mundo FIFA 2026, esclarece que: sim, garantimos a melhor qualidade para análise de cada lance dos jogos do torneio; não, não nos responsabilizamos pelo mau uso dos nossos produtos. O Brasil fez três gols no primeiro tempo. Baila Vini e vai Brasil!”.
Na outra ponta da expectativa pela classificação, surpresa nenhuma: Neymar não teve qualquer utilidade em campo. Cumpriu apenas o papel comercial de lançar uma nova chuteira da Puma, num amarelo chamativo e com a balela de que foi inspirada na fênix renascida das cinzas. Alguém precisa explicar ao jogador essa parte da mitologia. Enquanto o técnico Carlo Ancelotti não se fez de rogado para afirmar “Neymar tem 34 anos e tem a paixão de um menino para jogar futebol”, a galera foi mais realista nas redes sociais: “Quem precisa do Neymar?”.
É a pergunta que encheu o ambiente do futebol brasileiro desde que o Santos anunciou sua contratação, e o saco de quem não aguenta mais esse assunto e muito menos a postura daqueles ex-jogadores amiguinhos que viraram “comentaristas” e ficam tentando encontrar explicações técnicas inexistentes.
Claro que a torcida é para que a mensagem inventada pela fabricante da nova chuteira possa significar alguma coisa prática. Tomara que não, mas parece maior a probabilidade de apenas estarmos assistindo ao fim de carreira melancólico da maior Viúva Porcina do futebol. Sim, qualquer um que goste do jogo sabe tudo que esse rapaz jogou fora: o que poderia ter sido. Restou somente um pobre bilionário. Fazer um bom papel na Copa seria seu canto do cisne e oxalá ele saiba o que isso significa, até porque suas participações em Mundiais sempre foram pífias e até vexatórias quando virou meme mundial do cai-cai.
O próximo jogo será contra o Japão, um país que evoluiu demais no futebol desde que Zico foi contratado para desenvolver o esporte por lá. O que se tem visto é um time aplicado e de bom desempenho, que corre o tempo inteiro e parece não desistir nunca. Os jogadores demonstram em campo a filosofia nacional de dedicação, que também embala o projeto de ganhar uma Copa do Mundo até 2050. Carece atenção o fato de os japoneses costumarem fazer investidas pelas laterais, região do campo onde temos problemas conhecidos.
A vitória sobre a Escócia classificou o Brasil para uma etapa inédita na história dos Mundiais. Essa nova fase em que o Brasil enfrentará o Japão é chamada de quatro maneiras: “16 avos de final”, “fase de 32”, “Round of 32” na linguagem mundial da FIFA e até mesmo, de forma mais genérica, “segunda fase”. Pelo que temos visto, a imprensa brasileira adotou “16 avos”.
Em razão do novo formato da Copa do Mundo incluir 48 países, a nova fase acolhe 32 seleções vitoriosas na fase de grupos para iniciar o mata-mata com 16 jogos eliminatórios. Os vencedores jogarão as oito partidas das oitavas de final.
A partir daí tudo segue no modelo tradicional da tabela: os oito vencedores das oitavas jogarão as quatro partidas das quartas de final, os quatro vencedores das quartas jogam as duas partidas das semifinais e os dois vencedores das semifinais disputam a grande final.
Em linhas gerais o mais interessante é que, com o avançar dos jogos, Carlo Ancelotti vai imprimindo seu estilo de jogo ao time, e as vozes que sempre apressam críticas começam a abrandar o tom e ficar sem assunto. Claro que isso não significa nenhuma promessa de vitória em jogos do torneio, mas alguns apressados já andam estufando o peito de esperança e espichando o olho para a taça. A partir daqui qualquer seleção tem chances de ganhar a Copa? Sim e não, tudo depende de tanta coisa que é melhor apenas assistir aos jogos e acompanhar a bola. Afinal, também estamos fartos de bets e seus efeitos nefastos.
Permanece a sensação de apagão do time no segundo tempo — Vini Jr. tem sido sempre o primeiro lampião a tremeluzir —, mesmo quando a vitória parece clara antes do intervalo e todo mundo quer ver mais gols. Do lado de cá das TVs ficamos na dúvida se é limitação técnica, esgotamento físico, o maldito “sapato alto” do “já ganhamos” ou estratégia tática para dosar a carga, uma novidade do futebol moderno que faria rir os craques de outros tempos, que se matavam em campo o jogo inteiro.
A julgar pelo que Ancelotti andou dizendoe sobre ganhar e jogar bonito, somado ao rosário de títulos que conquistou em todas as ligas europeias muitas vezes administrando recursos e estratégias no limite da frieza, somos obrigados a prestar atenção no que pode estar sendo construído muito além do gramado. Uma coisa parece certa: ele já mudou o espírito da Seleção com o fim daquela bagunça festiva sempre comandada pelo “dono do time” de ocasião e seus batuqueiros, e começa a aparecer em campo um saudável senso de equipe. Além disso, até onde se sabe, nenhum jogador tem inventado moda ou usufruído de privilégios, todos os malandros tocando pianinho. E registre-se que não existe no planeta um técnico tão bom para se relacionar com jogadores e gerir grupos, com grande habilidade para ouvir todos e não se impressionar com estrelas.
Na verdade, vai ficando claro que o italiano foi uma escolha correta para o comando da Canarinho, e que, ao fim desta Copa, livre de algumas figuras que já deviam ter sumido na poeira, o trabalho vai realmente começar com chances de títulos a partir da Copa 2030. A fórmula é simples: seriedade e modernidade no comando e uma ótima geração surgindo no horizonte, para desespero dos nossos “professores” modorrentos cujos cotovelos andam inflamados.
Por ora, é bom seguir fazendo uma fezinha nos santos. Nosso primeiro jogo foi no dia se Santo Antônio. O terceiro no dia de São João. O próximo será no dia de São Pedro. Haja fogueira para saltar e rojão pesado para seguir adiante.
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