Reprodução/FIFA
Morremos na Noruega
- Heraldo Palmeira
Brasil 1×2 Noruega entregou o ingresso para as quartas de final aos viquingues. Perdemos porque o adversário soube fazer o que não quisemos: aproveitar as chances. Os noruegueses carimbaram nosso passaporte de volta para casa e ampliaram a incômoda escrita para três vitórias e dois empates. Ou seja, continuamos fregueses de uma seleção que nunca esteve entre as principais. Tem mais: a Noruega não ia a uma Copa do Mundo há 28 anos e nos impôs um tempo inédito de 28 anos sem ganhar uma.
O que mais entristece é que perdemos para um time sem inspiração, que mesmo assim jogou sem tomar conhecimento da Canarinho. Heggem e Wolfe, a dupla de zagueiros noruegueses de reconhecidas deficiências, jogou andando o tempo inteiro porque o Brasil não incomodou a ponto de os fazer correr. Traduzindo: os caras não tiveram trabalho, não foram expostos a situações em que entregariam a rapadura. E Haaland, o ponto de desequilíbrio, jogou com um certo desdém, sem correr demais, como quem tinha certeza de que era apenas uma questão de tempo, e foi. Ele tem 62 gols em 54 jogos pela seleção e fez dois do jeito que bem entendeu, até porque raramente entra em campo sem aumentar o rosário da artilharia particular. Matreiro, durante a semana tratou de colocar o peso do jogo para cima do Brasil, falando que a Noruega teria poucas probabilidades de sucesso: “Vai ser difícil avançar. Não vai ser fácil, não sei se vamos conseguir”. Não estava redondamente enganado, sabia o que podia fazer.
O time da Noruega é carente de bons jogadores, apenas três ou quatro chamam atenção — Berg, Bobb, Haaland. Mas o Brasil conseguiu deixar livre para jogar exatamente Martin Ødegaard, o camisa 10 e craque do time, que comandou o jogo e a administração do tempo como bem entendeu. Um maestro que sabe perfeitamente as deficiências de alguns músicos, mas faz a orquestra tocar sem exigir muito deles porque escreve o arranjo para os instrumentos dos eficientes. O mais incrível é que até as redes sociais estavam repletas do aviso enfático “Tem que ficar atento ao Ødegaard”. Ninguém ouviu. Além da derrota, perdemos na posse de bola por 66% a 34% e fomos dominados por um adversário com contra-ataque forte e transição impressionante em qualidade e velocidade. Foram 680 passes deles contra pouco mais de 300 nossos.
A apatia, o desinteresse, o desequilíbrio emocional, a quantidade de passes errados são apenas características negativas que castigam a Seleção Brasileira há muito tempo. Ficou a impressão de que simplesmente não quisemos ganhar um jogo que nos deu oportunidades generosas para isso. Ganhamos uma pergunta eterna: por que Bruno Guimarães foi o escolhido para bater o pênalti, mesmo tendo Vinícius Jr. em campo? Falaram em estatística, mas é óbvio que a responsabilidade pode pesar e deve ser considerada nessas horas. Dá para imaginar o salseiro que enfrentaríamos se o jogo tivesse ido para a disputa de pênaltis.
Por fim, caiu a máscara que qualquer voz sensata cansou de anunciar: Neymar sempre foi indigno da camisa 10 que um dia vestiu Pelé, Rivellino e Zico porque sempre se achou maior do que ela em seu individualismo doentio. Esteve em quatro Copas, não ganhou nada e sujou nossa camisa histórica naqueles memes mundiais na Copa 2018, em que se dedicou ao cai-cai das simulações.
Sua convocação para a Copa 2026, sabe-se lá para atender a quem, será sempre lembrada como uma lambança, a celebração cafona de um Brasil que normaliza a malandragem que precisa sair de moda o quanto antes. E ele não deixou por menos, suas duas entradas em campo foram vexaminosas e hoje desmontou o time exatamente porque não tinha nada a oferecer e muito mais a atrapalhar.
Em suma, encerrou sua história na Canarinho no seu melhor estilo: fazendo presepadas, envergonhando um país e o mundo do futebol com a agressão a Ødegaard — que rendeu um merecido cartão amarelo que poderia ter sido vermelho — e a cena de pelada com o goleiro Nyland. Nem vale a pena perder palavras com esse coitado que nunca teve noção da realidade, a ponto de jogar fora uma carreira das mais promissora como está fartamente documentado para a posteridade. Ao fim do jogo ainda balbuciou “Tentei, agora acabou”. Já não era sem tempo!
Fica uma curiosidade imediata sobre o que dirão os passadores de pano da mídia pacheca e daquele clubinho de ex-jogadores microfonados — Zinho, Zé Elias e Fábio Luciano… — que tanto insistiram nos possíveis milagres que essa farsa poderia fazer em campo. Sim, milagres porque no mundo real essa reza nunca teve força vestindo a Amarelinha, ainda mais num momento em que merece apenas compaixão.
Zinho, o eterno “Enceradeira”, escancarou sua vergonhosa vocação para surfar na onda da hora. Depois de defender dia sim e outro também a presença de Neymar em campo, soou esbaforido na resenha pós-jogo: “Essa Copa, ele não tinha condição física de jogar a Copa. Ele é convocado machucado, com uma lesão muscular pra se recuperar durante uma Copa, pra tentar ser aproveitado durante a Copa. E foi nítido que quando ele entrou nos jogos, ele não tinha condição”. Completamente fora de órbita, também defendeu que ele precisava estar lá por ser o “astro” que impressionaria os adversários. Sim, é risível! Também não não perdeu a oportunidade de colocar o vexame “na conta do Ancelotti”, pois sempre foi contra a contratação do italiano. É nisso que dá entregar microfones da imprensa especializada a ex-jogadores com esse tipo de opinião gelatina, carrascos da língua portuguesa e que vivem alardeando muito maior o próprio passado comum.
Das mesmas catacumbas corporativistas ecoou a gritaria de Vanderley Luxemburgo em vídeo acusando o italiano de ter errado muito durante toda a Copa. Outro que sempre foi contra a contratação de técnicos estrangeiros, tomou como base para a falação o mesmo ex-jogador em atividade. “Usar o Neymar só nesse jogo, agora? Nós não temos jogador melhor do que Neymar, cacete! Qualquer lugar do mundo preservaria o Neymar. O técnico tem obrigação de montar um esquema para elevar o seu ídolo, o seu melhor jogador, como Haaland jogou lá. O time jogou pro Haaland, esperando uma ou duas bolas, e, aqui no Brasil, você é muito bom e é descartado”. E ampliou o chororô atirando na imprensa: “Os técnicos brasileiros estão vendo aí. Se fosse um técnico brasileiro vocês tinham arrebentado. A imprensa não fala nada porque vocês são subservientes dos europeus, vocês querem o Brasil como o futebol europeu. […] Como é que vocês querem alguma coisa com o Brasil, porra, se vocês tão acabando com o Brasil? Porra!”.
Essa gente parece ignorar os períodos de Tite e todos os técnicos que fizeram o time jogar em função do nosso “melhor jogador” e não devem ter acompanhado o futebol desde 17 de outubro de 2023, quando Neymar sofreu grave lesão no joelho esquerdo na partida contra o Uruguai pelas Eliminatórias, em Montevidéu. Desde então, nunca mais jogou de verdade. A mesma gente que se voltou contra Jorge Jesus quando o português anunciou claramente a realidade, que recomendou a dispensa do Al-Hilal porque ele jamais voltaria a atuar em alto nível.
Mantendo o costumeiro tom deselegante, Luxemburgo ainda retomou o velho blá-blá-blá de que temos de apostar no drible e não na tática. Não é à toa que está fora do futebol. Afinal, tudo isso morre numa pergunta simples: que outra seleção do mundo consegue sobreviver driblando o cenário atual? Isso não significa diminuir o talento individual, mas não é mais possível ignorar a intensidade física que domina o esporte e a necessidade de esquemas táticos que nem sempre priorizam o futebol-arte.
Talvez seja mais razoável entender que são nossos jogadores que precisam urgentemente adquirir senso coletivo, e que a Seleção não é a pelada do recreio onde podem fazer o que bem entenderem, algo impensável em seus times, onde o sistema de jogo é o centro de tudo. Ou é razoável ver Vinícius Jr., Raphinha, Paquetá tentarem repetidas vezes aquele irritante drible a mais quando há um companheiro desmarcado ao lado? Ou “passar por dentro” de três ou quatro adversários no cerco de uma marcação cerrada? Sem contar os passes errados em favor de letras, calcanhares ou outras firulas que sempre resultam em bola perdida e contra-ataques dos adversários. E muitas vezes chutar a gol querendo fazer história, ignorando outros jogadores em melhor posição para finalizar.
Carlo Ancelotti está debaixo de críticas porque errou nas modificações e a pior delas foi colocar um ex-jogador em campo. Alguém já parou para pensar que pode ter sido exatamente sua forma de mostrar que o falso salvador sequer deveria ter sido convocado? Afinal, se qualquer leigo sabia que ele não aguentaria seguir em campo no caso de prorrogação, imagine um técnico desse porte. Talvez estivesse guardando a cartada final, que seria substituí-lo no “terceiro tempo” que terminou não acontecendo porque fomos eliminados no tempo normal.
Na verdade, é provável que Ancelotti esteja rindo por dentro e sobram motivos. Além do baita contrato com a CBF que o transformou no técnico de maior salário desta Copa — serão R$ 300 milhões ao fim dos cinco anos —, se livrou de uma geração patética marcada por Neymar, Marquinhos, Casemiro, Militão, Alisson, Danilo, Alex Sandro, Raphinha e tem pela frente enorme horizonte para iniciar um trabalho de verdade para a Copa 2030. Há uma nova geração cheia de promessas que está chegando livre de vícios e de estrelismos, algo adequado para lidar com um técnico que não se intimida com estrelas e não tem qualquer dificuldade em isolar quem não está em sintonia — leia-se Luiz Henrique, que passou a Copa muito mais preocupado em cuidar da família e amigos nas arquibancadas dos estádios do que com o time.
Ancelotti já deu o mote: “A derrota não é o fim, é o início de um novo ciclo”. Um lugar onde não haverá a geração de Neymar, vocacionada para a derrota, que nunca honrou a Amarelinha e vai passar o resto da vida ouvindo o “ruuu” dos noruegueses como o último troféu que jamais ganharam.
Passou da hora de mudar a mentalidade, abandonar essa conversa fiada de futebol-arte e peso de camisa. Há um novo modelo de jogo que precisamos jogar como o resto do mundo faz. “A gente precisa aceitar que o tempo passou e o Brasil ficou para trás. O Brasil precisa se reinventar no futebol e não é mentindo para si mesmo que isso vai acontecer. O Brasil passou seis meses antes da Copa discutindo a convocação de um ex-jogador em atividade, achando que esse cara poderia ser o salvador. E daí, quando ele entra o time desmonta completamente. O Brasil tem pautas atrasadas no futebol. O Brasil vive da ilusão e da mentira de que ele é o ‘país do futebol’. Não é mais. […] Precisamos descer do salto para começar a pensar no futuro”, afirmou o jornalista Eugênio Leal, da ESPN.
Além das questões do gramado, há também a nefasta questão política. “A CBF é dirigida por políticos que na maioria das vezes não aparecem, colocam lá fantoches e ficam utilizando aquilo de acordo com seus respectivos interesses. Enquanto brotar um presidente completamente desconhecido na CBF, como brotou esse atual… Ninguém sabia quem era Samir Xaud. Ele aparece de repente como presidente da CBF. As pessoas aparecem porque são marionetes de políticos” completou Leal.
A Copa 2030 é logo ali e será jogada em Portugal, Espanha e Marrocos. Tomara que a Pátria de Chuteiras renasça das cinzas e volte a encantar o mundo com um futebol renovado, capaz de resgatar o orgulho da torcida e juntar novamente o país ao redor da bola. Há muito por fazer, a começar pela CBF.
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